domingo, setembro 04, 2005

Bêu

Quase toda criança , quando pequenina, tem uma fraldinha ou cobertor do qual não se afasta.
Dos meus filhos só a Adrianinha, a mais nova, teve este "hábito". Porém ,não era uma fraldinha ou cobertor, era o Bêu.
O Bêu era uma fronha vermelha, com bordados brancos, de um dos meus travesseiros.Na verdade eram duas fronhas, que eu revezava enquanto eram lavadas. Ela não podia ficar sem o Bêu dela. Ficava esfregando os dedinhos na ponta das fronhas deixando-as puídas.
Há um dia que vai ficar para sempre na minha memória. Nós morávamos em Joinvile, numa casa com um terreno muito grande. Chovera muito e , quando fez sol, precisei lavar as duas fronhas. Lavei-as e as estendi no varal ,com esperança que elas secassem antes da Adrianinha acordar. Mas não foi isto que ocorreu. Ela acordou e a primeira coisa que ela veio me pedir foi o Bêu. Ela estava com 2 aninhos e costumava arrastar o travesseiro, que era grande, por onde andava. Eu disse que tinha lavado, mostrei as fronhas no varal e disse que logo elas estariam secas.
Eu nunca vou esquecer aquele dia, porque a Adri ficou o tempo todo perto do varal. Bem embaixo das fronhas. Eu tinha que a todo momento verificar se elas estavam secas. Nada fez com que ela se afastasse. Ficou lá de pé, a cabecinha virada para cima, os olhinhos vigiando o Bêu, que ela descobrira serem dois.
Com o tempo as fronhas foram rasgando. Comprei novas fronhas vermelhas , mas ela não queria.
No final ela largou do Bêu que ,depois de um tempo, descobri guardado em meu armário. Sinal de que eu ,de certa forma, fiquei com a fronha como se guardasse um pedacinho do meu passado. Gesto com certeza desnecessário , já que tenho todas as lembranças gravadas, não apenas na memória , mas no coração.

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