Os anos em que moramos em Blumenau foram os das maiores enchentes.
Durante a maior delas chegamos a ficar 20 dias retidos em casa. Sem luz, sem telefone. Água só a da chuva que, devidamente tratada, era utilizada para a nossa alimentação e higiene.
Nossa casa ficava no alto de uma rua sem saída. A visão que tínhamos durante a enchente era só de telhados. Casas submersas a perder de vista.
Era sábado , a água baixara permitindo que as pessoas voltassem para suas casas. Dia de avaliar as perdas e encarar a limpeza.
Perto do meio dia, eu na cozinha e as crianças brincando com alguns amiguinhos. Lembro de ter ouvido o Eduardo dizer:
Tu duvidas?
Depois disto tudo foi muito rápido. Uma vizinha entrou gritando que o Eduardo tinha caído. Corri para a rua e vi que alguém carregava meu filho nos braços .Pedi para minha vizinha desligar o gás do fogão e olhar pelas crianças e desci a rua correndo, descalça e ainda de avental.
Eduardo foi colocado no banco traseiro do carro . Meu filho estava muito sujo de sangue, desacordado. Ele tinha 7 aninhos.
Durante o trajeto para o hospital ele acordou mas não lembrava o que tinha acontecido. O hospital, que havia sido atingido pela enchente, atendia de maneira precária. Eduardo bateu com a cabeça e todo o lado esquerdo do corpo.
Estava bastante machucado mas não precisou fazer nenhuma sutura.
Quando retornamos para casa, onde todos aguardavam assustados, e ficamos sabendo o que acontecera.
Eduardo nunca gostou que duvidassem dele. Muitas brigas e queixas de vizinhos eram por duvidarem dele. Duvidavam que ele jogava a bola na cara de alguém, ele jogava. Duvidavam que ele quebraria o carrinho de outro, ele quebrava.
Então... Haviam duvidado que ele desceria a nossa rua, uma respeitável lomba de paralelepipedo, de bicicleta sem segurar na direção. E ele desceu. Felizmente ele usava capacete o que ,com certeza, evitou consequências bem mais graves.
Foram muitos dias e noites de vigília até ele estar bem recuperado.
Eduardo sobreviveu a este e muitos outros tombos, não duvidem. E eu sobrevivi também.
Foram muitos os sustos em que o Eduardo foi o protagonista mas ,sem dúvida, as alegrias e o amor que sempre nos ofertou foram bem maiores.
domingo, agosto 21, 2005
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